Se há conceitos que ultrapassam os limites da inteligência, e até do absurdo, é o de Destino. A velha e irrefutável ideia de que tudo aquilo que vivemos já está determinado. Que todos temos o guião das nossas vidas, senão completamente escrito, pelo menos amplamente alinhavado.

Não quero aqui provar ou negar a existência do mesmo. Só coloco uma questão. Para quê? A sério, já alguma vez pensaram nisto? Porque raio é que alguém se ia dar ao trabalho de escrever a história de toda a humanidade e realizar tamanho argumento? Para satisfazer o seu sonho de menino de ser realizador de cinema? Para se entreter a ver um filme? Foda-se, e ainda há quem ache que E Tudo O Vento Levou é grande. Aquelas quatro horinhas, a ver o Clark Gable de banho tomado enquanto tudo à sua volta morre estropiado e a esvair-se em sangue, agora até parecem curtas para ir à casa-de-banho num intervalo.

É um perfeito disparate. E o Destino também. Se alguma coisa estivesse escrita qual seria o propósito? Bom, dá sempre para argumentar que mesmo sem nada estar escrito que ainda ninguém encontrou o sentido a tudo isto. Válido, mas mesmo assim não me convence. Caso fosse verdade, quem seria o autor de tamanha barbárie? E com que critérios? Mas que sadismo e parcialidade.

Em todo o caso temos de estar abertos a todas as possibilidades. E caso se confirme que esta teoria é verdadeira só há uma coisa a fazer. Demitir o argumentista. Mais nada. Já está à demasiado tempo no cargo e a história já perdeu a Graça à muito. E só uma pessoa o pode substituir. Nós e nós mesmos.


Já sei que não gostam do Woody Allen. Ninguém gosta. Já ouvi isso mil vezes. Eu gosto e quero é que o resto se foda. Eu também não vos impeço de gostarem do Jackie Chan, do Martin Lawrance e dos Coldplay, por isso escusam de me repetir a ladainha que já ouvi mais de mil vezes. Chamem-me intelectual e todo o tipo de insultos previsíveis neste momento. Já sabem do que se vai falar nas linhas seguintes, se não gostam ainda vão a tempo de mudar. Tenho a certeza que se ligarem a televisão deve estar a dar “O Preço Certo” ou uma qualquer reposição de “Os Malucos do Riso”.

Após este pequeno apontamento (e de dois Valdispert) podemos finalmente seguir para aquilo que tratamos hoje. Vi recentemente Whatever Works (em português Tudo Pode Dar Certo) escrito e realizado por quem imaginam. Neste filme Woody Allen aborda a junção de dois temas, o Amor e o Acaso. Não é a primeira vez que o faz. Por exemplo, em Match Point a imprevisibilidade daquilo que nos rodeia é o tema central do filme e em Maridos E Mulheres a dinâmica e química entre casais e aquilo que os forma é o corpo de toda a acção. Mas agora, talvez mais que nunca, centra-se nestas duas temáticas e faz disso um grande filme, pura e simplesmente.

A personagem principal é interpretada por um dos mais brilhantes comediantes dos últimos cinquenta anos, Larry David. Um aparte. Para quem não faz ideia de quem é esta alma está em boa altura de ir pesquisar. Vão achar muito curioso ter sido ele quem escrevia os textos de uma das mais populares séries de todos os tempos. Mas voltemos ao filme. Larry David nem representa, pura e simplesmente aparece e é a pessoa indicada para tal. Um desiludido, intragável e descrente ser, que é humano apesar de não se identificar com a espécie, vê o seu mundo sem sentido dar as mais imprevisíveis voltas sem que o propósito alguma vez se instale. Mas ao fim e ao cabo isso também não o parece incomodar. Porque como ele diz, o que quer que funcione serve perfeitamente.

E aqui fica mais uma sugestão cinematográfica que-ninguém-vai-ver-porque-é-do-Woody-Allen. Mas que seria excelente para todos aqueles que vivem na ilusão que controlam as suas próprias vidas e desprezam a importância da sorte e do azar nas mesmas. Este filme é uma brilhante análise existencial a transbordar de sarcasmo e de inteligência. Que para além de entreter o espectador também o faz ponderar sobre a sua patética mas muito válida existência. Agora…onde é que pus os Valdispert?...


Entro, a luz perde os meus passos sobre o olhar. Atento, respiro e movo-me sobre o chão fixo, pregado às tábuas do meu caixão. Passos curtos de análise, olhar atento e certeiro. Serpenteio, focado e consciente de cada sopro da pessoa que cresce em mim. Sobrevoo o campo de batalha, os vultos movem-se, estudam-se, aguardando pelo momento exacto. A tensão cresce. É o agora. Único na sua espontaneidade, singular em todas as suas formas, sublime e efémero como todos os outros, áspero, duro e asfixiante. Névoa dos passos perdidos. Confronto de mim comigo mesmo. Sinto o embate da minha alma sobre os pilares da minha existência. Morte e vida num só. Presente mais que perfeito prestes a diluir-se no todo que faz um registo.

Sobe, a alma intensifica-se, sobrepõe-se à imagem de si mesmo. Agora sou quem apareço. O verdadeiro, o que brota em mim e por mim. Respiro fundo e abrando o passo. Endireito as costas e tomo posição. O olhar aterrador de quem nasceu para viver e morrer. Pé ante pé pelo meio do ringue. O golpe de uma vida. O mais brilhante dos momentos. Assustador até para quem o desfere. O desconhecimento da sua origem invoca a presença de um ser mais alto. O retorno da imagem perdida. Do ser de quem me tinha separado. O contemplar da visão de Deus. O menino fez-se homem. O nascer fez-se ser. A essência assentou finalmente sobre a existência.

Choro. Descarga emocional. Sento-me. Acendo um cigarro no frenético ritmo da vida. As lágrimas correm-me pela cara ao som do meu desabafo. Os anjos sopram os seus metais. O campo de batalha volta a dar uso ao seu nome. Acção. Embate após embate, cada vez mais duro a cada momento. Frenético, violento e impensável. Destruição de todos os muros e de todas as barreiras. Dependo apenas de mim mesmo. Sou só eu. Quem luta, quem vive. Eu e apenas eu. Sem depender de ninguém. Para o melhor e para o pior.

Já cansado aproximo-me do centro do ringue. Golpes atrás de golpes provocam a primeira queda. Vejo o seu corpo desesperado deitado no chão. A minha face é a mesma. Nada me faz mudar. O ser que brota de mim é a besta da minha essência. Domada por mim e para mim. Eu sou eu. A aparição de mim mesmo. Quem olha do chão é o meu reflexo. A outra face da mesma moeda. Somos um, somos tudo. Indefiníveis e mutáveis.

Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente IV"

17 de Maio de 1966. Num concerto no Free Trade Hall de Manchester um espectador vira-se para o palco e exclama:

- Judas!

O artista não muda de expressão, aproxima-se do microfone e responde:

- I don’t believe you, you’re a liar.

De seguida, com a sua arma em riste, vira-se para a banda e diz:

- Play it fucking loud.

E The Band irrompe, plena de força e confiança, com “Like A Rolling Stone”. Como um grupo de soldados dando apoio ao seu general em mais uma dura batalha. O nome, Bob Dylan.

Este é um dos momentos mais marcantes da história do Rock N’Roll. O mais curioso é ter-se repetido n vezes. Durante essa digressão, que o levou aos quatro cantos do mundo, Bob Dylan foi insultado em todos os concertos, pelas mesmas pessoas que tinham pago bilhete para o ver e sempre com os mesmos pretextos. Por ter abandonado (leia-se evoluído) a sua imagem de cantor folk. Por ter incorporado instrumentos eléctricos em vez de se limitar à guitarra acústica e à harmónica. Por ter deixado de escrever canções politicas ou de protesto, conforme preferirem designar. Por se recusar a ser a voz da esquerda ou da nova geração e por querer apenas ser apenas a voz de si mesmo.

A História dar-lhe-ia razão. Os seus tão criticados álbuns daquele período são hoje em dia vistos como obras-primas da música moderna. Clássicos que irão certamente resistir ao passar do tempo. A sua atitude na época marcou o momento decisivo da música popular. A partir deste momento, este veículo de expressão seria isso mesmo. As letras e a atitude inerente passariam a ter significado e a simbolizar algo. Já não era meramente entretenimento o que aqui estava perante nós. Mas um olhar profundo sobre o mundo e a nossa existência sobre ele.

Para além de tudo isso, o que é extraordinário é ele ter tido a coragem de o ter feito. Nunca ninguém passou por tal experiência. Já imaginaram o que é subir ao palco, noite após noite, para ser mais uma vez vaiado? Só se o Pedro Granger decidir lançar um disco. Mesmo assim duvido que tenha o mesmo destaque.

Dylan foi insultado pela direita e pela esquerda, por liberais e por conservadores, por velhos e por novos. Aposto que nem o Pai Natal lhe deu prenda nesse ano tal era a sua popularidade. O que faria sentido independentemente do resto pois ele era judeu. Não, não estou a falar do Pai Natal… eu sei lá se o Pai Natal é judeu… acho que não… ele era o São Nicolau e os judeus não têm santos… realmente podia ser só o nome dele… mas olha que também nunca vi nenhum Bar Mitzvah lá para a Lapónia… Mas que caralho. Que merda de conversa. Não era o Pai Natal. O Pai Natal nem existe. O Bob Dylan é que é judeu. O verdadeiro nome dele é Robert Zimmerman. Querem nome mais judeu que Zimmerman? … eu sei lá se o gajo ainda é judeu?... olha, porque é que não lhe ligas?

Onde é que eu ia? Ah… na coragem demonstrada.

Seria preciso passar oito anos até que Dylan voltasse às digressões. Pudera, depois de andar um ano inteiro a ouvir “Oh filha-da-puta mete a guitarra no cu e vai para casa.” a última coisa que temos vontade é de voltar a um palco. Apesar de todo o sofrimento que passou, Bob mandou provavelmente a maior pedrada no charco da História da música popular. E acima de tudo foi fiel a si mesmo apesar de todas as adversidades. Todos nós, à nossa medida, temos a possibilidade de fazer o mesmo. De sermos nós mesmos independentemente daquilo que os outros achem de nós. Mais que possibilidade temos a obrigação. Senão o mais certo é acabarmos como a personagem do refrão da música. Se é que não estamos já lá…

Play It Fucking Loud.


Como é sabido por todos, este fim-de-semana vai-se realizar em Lisboa a cimeira da NATO. Já devem ter ouvido isto repetidas vezes por isso a última coisa que quero é maçar-vos com descrições, críticas ou debates sobre a validade da mesma. Se isso vos interessa decerto que não faltarão sites e blogs que dedicaram extensos comentários a tudo isso.

O que me captou a atenção não foi a cimeira em si mas um pormenor em particular. Todos os chefes de Estado têm comitivas. Esquadrões de auxiliares nas mais variadas áreas para prestar apoio ao seu representante. Até aqui tudo bem. Não vamos ser cínicos nem ingénuos e imaginar que os governantes dos países envolvidos vinham sozinhos até à cimeira. Já agora de carro, a partilhar as contas da gasolina e a dormir em casa dos primos. Sejamos realistas.

Mas tudo na vida tem limites. E um caso que supera em muito o limiar da lógica e da razoabilidade é o da comitiva norte-americana que tem à volta de novecentas pessoas. Eu disse bem, novecentas. Para que raio é precisa tanta gente? Será que Barack Obama tem acessos de megalomania? Isto da presidência subiu-lhe à cabeça e agora acredita ser um sultão asiático ou uma estrela de hip-hop? Não conheço o senhor pessoalmente mas duvido que assim seja. Não por ele mas tendo em conta os comportamentos dos americanos neste tipo de situações acredito ser prática corrente.

Seja de quem for a culpa do tamanho absurdo desta comitiva é um exercício mental interessante imaginar quais as funções das novecentas pessoas envolvidas. Deve haver gente para tudo. Mas para tudo mesmo. Mas façamos contas.

Li que Barack Obama recebe cerca de trinta ameaças de morte por dia (ainda se queixam vocês do vosso emprego). Logo, é normal que hajam bastantes membros de segurança. Em números oficiais serão cerca de duzentos. Daí ainda nos sobram cerca de setecentas pessoas divididas entre cozinheiros, equipa médica e assessores. Ora bem, para cozinhar e dar apoio clínico a tanta gente deverão ser precisas umas cem pessoas. Cinquenta para fazer as sandochas e outros cinquenta para fazer curativos de Betadine e pensos rápidos e aviar Benurons. Tudo certo. Mas ainda nos faltam seiscentas pessoas. Sobram os assessores.

O que raio é que é preciso “acessar” para serem precisas seis centenas de pessoas? Será que “acessar” é assim tão trabalhoso? Pelos vistos é, deve ser pior que a estiva. Deve pesar imenso e ser complicado de transportar. Ou então “acessar” divide-se em muitas áreas. Daí serem precisas tantas pessoas com funções especificas. Maquilhadores, costureiras, cabeleireiros, responsáveis de comunicações, motoristas, mecânicos, malta para trazer o café e o chá a todos os outros, porta-voz para a imprensa, o gajo que vai ao quiosque comprar os jornais do dia, a saca-bicos, o saca-bicos, uma mão cheia de tradutores, familiares, um bobo, um anão, umas dezenas de lambe-botas, conselheiros de imagem, o cão, os tratadores do cão, telefonistas, aias e consortes, um gajo que esteja sempre bem disposto, um resmungão, um dealer, estafetas, estafetas do dealer, um reverendo, o Eusébio, um tesoureiro, um departamento de contabilidade, informáticos, produtores de televisão, empresários, carregadores de malas e mais uma série de gente que há-de ser absolutamente indispensável.

Realmente se formos a ver bem novecentos é pouco. Deviam duplicar o número não vá faltar alguma coisa. Lisboa não é Nova York e depois é uma dor de cabeça para arranjar o que quer que seja.

Visto no meu último post ter colocado um fabuloso comentário satirizando a religião, nada como agora dar a palavra a um Homem de Deus. Frei Fernando Ventura. Confesso que desconheço por completo a sua história e a sua obra, e sinceramente isso parece-me de momento irrelevante. Só sei que este cidadão retratou, numa entrevista na SIC Notícias, da forma mais brilhante que vi em muito tempo, o verdadeiro estado de nós e do nosso país.
Fiquei verdadeiramente impressionado com a sabedoria, visão e astucia das suas palavras. Por isso mesmo não me limito a vos recomendar este vídeo. Peço, ordeno-vos e suplico-vos que o vejam. O momento assim o exige. Até podem nem concordar com aquilo que irão ouvir mas certamente que vos fará pensar. E há alturas em que temos mesmo que o fazer. Esta é uma delas.



Mais uma vez o meu sincero agradecimento ao Frei António Vieira pelas suas palavras.

Quando perguntaram a Voltaire como era a sua relação com Deus respondeu

- Cumprimentamo-nos mas não nos falamos.

E julgo que, pela minha parte, não ando longe disso, dado haver coisas que me parecem tão injustas. Fui menino de coro e a igreja assustava-me, grande, solene, cheia de mistérios e correntes de ar, que me faziam aparentar a religião a um sítio ventoso de onde inclinadas por brisas contraditórias, os reposteiros, um pouco gastos, ondulavam constantemente, os bancos, desconfortáveis, magoavam-me as costas. Muitas senhoras levavam almofadas para os joelhos e os homens, ao endireitarem-se, sacudiam o pó das calças, o que me levava a pensar que Deus não era assim muito asseado ou então contratara uma mulher-a-dias incompetente. A minha mãe era muito melhor na escolha do pessoal, e esta falha divina confundia-me. O facto de Deus ser um patrão negligente afastava-me dele. O sacristão, por exemplo, a andava por ali, a espanejar os mártires dos altares com uma vassoura preguiçosa, infectando as feridas de São Roque que exigiam água oxigenada em lugar do piaçaba, e não havia santo que não usasse sandálias e não tivesse, pelo menos, um dos dedos do pé em fanicos. Sandálias horríveis de turista holandês e túnicas desbotadas, mostrando-me que o céu era um sítio a meio caminho entre a praia da Cruz Quebrada e um parque de campismo pobre, onde os bem-aventurados comiam conserva e enchiam tudo de cascas. O lado suburbano de Deus desagradava-me e o seu retrato, no livrinho do catecismo, ampliava o desagrado: um senhor hirsuto, empoleirado numa nuvem e segurando relâmpagos na mão como os electricistas, ao qual ninguém, com um bocadinho de senso, abriria a porta se o encontrasse no capacho. Era impossível imaginá-lo na sala com a minha família: as visitas a entrarem numa revoada de beijos efusivos, a darem com aquele vagabundo desleixado, o embaraço do meu pai.

- Apresento-lhe Deus, senhora dona Ângela.

O vagabundo a erguer-se da nuvem num assomo de delicadeza inesperada, a estender uma palma imensa de unhas duvidosas que obrigavam as visitas a limparem-se disfarçadamente ao lenço, a passarem a tarde na companhia de uma criatura esquisita que em vez de falar debitava profecias numa linguagem labiríntica, que se gabava de ter morto o próprio filho, se despedia.

- Até amanhã se eu quiser.

Depois de nos constipar a todos com as tais correntes de ar traiçoeiras, e em lugar do alpendre atravessar o tecto para se ir embora, cavalgando a sua nuvem de gesso e entortando-nos o lustre. A minha mãe servia o chá a desculpar-se e a desculpá-lo.

- Coitado, é da idade, já tem tantos mil anos.

As visitas criticavam-lhe a roupa e o desalinho, sugeriam que se falasse ao senhor prior numa colecta para lhe arranjar pelo Natal um fatinho decente, o prior, ainda que subserviente aos ricos piedosos, argumentava.

- Gosta de gafanhotos e mel silvestre, o que se lhe há-de fazer.

E porque quem come gafanhotos não regula bem da caixa dos pirolitos sugeria-se o internamento num lar, com empregadas vigorosas e pouco atreitas a gripes, que servissem a Deus uma sopinha com bastantes couves e alguma carne [...] lhe retirassem a poeira, que a vassoura do sacristão ali deixara, com um duche eficaz, e o pusessem a dormir entre lençóis lavados e sem nenhuma garrafa por perto, a induzi-lo a um novo chorrilho de profecias, sabendo-se, conforme se sabe, que o vinho leva à mania das grandezas e aos discursos pomposos. Um Deus impecável, de cheviote, sem intervalo de pele entre a calça e a peúga quando cruzasse a perna, capaz de um jeitinho no bridge se faltasse um parceiro, de nuvem pirosa substituída por uma poltrona de orelhas, achando os gafanhotos péssimos para a digestão e preferindo ao mel silvestre uma compota caseira de confiança. Alguém, em suma, a quem se pudesse abrir a porta ao encontrá-lo no capacho.

- Faça favor, Deus.

E apresentar às visitas como um parente decrépito mas digno, em lugar de o recambiar para a cozinha.

- Tenha paciência.

A comer com as criadas, depois de poisar o seu feixe de relâmpagos nos joelhos como um guarda-chuva a que faltassem varetas.


António Lobo Antunes, Segundo Livro de Crónicas, 1ª edição, Lisboa

Sempre admirei pessoas que se estão completamente a cagar. Notem desde já que não estou a falar de seres desprezíveis sem respeito pelo próximo. De narcisistas ou de alguém que embirra só porque gosta de chatear os outros. Também não me estou a referir a problemas de flatulência ou de portadores de doenças ao nível do músculo do esfíncter. Estou sim a falar de alguém que não está para ouvir merdas, aturar malucos ou de engolir sapos. De alguém que apenas dá importância àquilo que é verdadeiramente importante.

Haverá coisa mais linda neste mundo que mandar calar quem quer seja porque nos começou a entediar com os mais desinteressantes e despropositados assuntos? Perder por completo qualquer pudor social em agradar outros, que nos desagradam tanto, é mais que uma obrigação. O respeito não deve ser um facto consumado. O respeito tem de ser ganho. Conquistado com a nossa personalidade. Um diamante a ser lapidado todos os dias para que não nos tornemos mais do mesmo mas sim mais de nós próprios. Um sinal de carácter e de crescimento.

Senão de que vale tudo isto? Batermos em lugares comuns e conversas de circunstância não faz de nós melhores seres humanos. Faz apenas da nossa existência uma parvoíce sem qualquer espécie de sentido tal como muitas das coisas que por vezes empurramos pela goela uns dos outros.

Não confundam isto com abrir a boca apenas quando se tem algo de interessante para se dizer. Se assim fosse passaríamos a maioria do tempo em silêncio e isso também não leva a lado nenhum. Estar calado é uma excelente forma de não arranjar problemas mas não pode ser o mote de uma vida. É bem preferível encher este vazio com o absurdo, o disparatado, o irónico, o sarcástico e tudo o mais que nos apeteça. Antes isso que enveredar pelo desinteressante e previsível. Abandonemos o conforto do terreno neutro e passemos à bastonada à imbecilidade.

Como era bom que assim fosse mas é deveras complicado. As conversas de circunstância, o debate sobre o tempo e os cortinados da sala, os desbloqueadores de conversa, a vidinha e tudo mais aquilo que nos faz falar falar e não dizer pôrra nenhuma, aborrecendo os outros e nós mesmos, é parte integrante da nossa essência. E se querem que vos diga isso não tem mal nenhum. O que é perigoso é acharmos que o irrelevante é o que mais importa e que a força vital da nossa vida não é mais que um assunto secundário.

“Quando somos felizes somos sempre bons, mas quando somos bons nem sempre somos felizes. (…) Ser bom é estar de harmonia consigo mesmo (…) O conflito é ser obrigado a estar de harmonia com os outros. O que é importante é a nossa própria vida. Quanto às vidas dos nossos semelhantes, se desejarmos ser moralistas ou puritanos, podemos alardear as nossas opiniões morais sobre elas, mas elas não nos dizem respeito.

Além disso, o individualismo tem realmente um objectivo mais elevado. A moralidade moderna consiste em aceitar o modelo da própria época. Considero que uma forma da mais grosseira imoralidade é o facto de qualquer homem de cultura aceitar o modelo da sua época.”

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray